Histórias
inventadas sempre trazem lições ou visões da época em que foram escritas. Não
por acaso, avanços científicos normalmente são alvo da suspeita dos leigos.
Nesse ponto, as histórias de ficção científica traduzem esses medos e pavores,
as vezes de modo exagerado e não realista, quase sempre buscando uma pergunta
filosófica no campo da moral e ética: devemos fazer o que estamos fazendo com
essa nova tecnologia? Devemos brincar de Deus dessa maneira?
Se a
ciência não reconhece mais a alma então podemos brincar com corpos humanos e os
trazer de volta a vida? Se a radiação causa mutações, pode ser usada para criar
monstros? Androides sonham com ovelhas elétricas? É da nossa alçada brincar com
o DNA e trazer organismos que já se extinguiram de volta a vida?
(Como
o leitor já deve ter percebido, será um texto sobre Jurassic Park).
O
medo diante de novas tecnologias acompanha previsões de desastres ambientais e
máximas prontas de como o ser humano consegue destruir o planeta a cada passo
adiante. Embora durante anos a radiação tenha sido a vilã da vez (explicando a
origem de superpoderes até a criação de monstros como Godzilla) atualmente o
medo dos transgênicos e clones tem colocado a genética como a grande caixa de
pandora humana. Não é à toa quando, após receber críticas de que seu livro
Jurassic Park estava muito infantil, Michael Crichton tentou deixa-lo com uma
perspectiva mais adulta ele iniciou fazendo previsões terríveis sobre o futuro
da engenharia genética colocando-o no mesmo degrau de ameaça global que a
energia nuclear. O que aconteceria se começássemos a clonar animais extintos? A
engenharia genética traria dinossauros de volta a vida?
Não
foi, no entanto, a engenharia genética, mas a tecnologia dos cinemas que trouxe
os dinossauros a vida na película de 1993, o filme Jurassic Park de Steven
Spielberg, levemente baseado (sim levemente, e se você leu o livro vai
concordar comigo) no livro de Michael Chrichton. Como toda criança do início
dos anos 90 eu assisti Jurassic Park nos cinemas e fui contaminado pela
dinomania da época. No natal daquele ano eu ganharia o livro de Chrichton da
minha mãe e devoraria em quatro dias. Obviamente que li o livro pela
perspectiva de uma criança de 11 anos, vibrando com as cenas de Alan Grant e
Muldoon e entendendo muito pouco o papel de Ian Malcolm no livro (também me
surpreendi que Hammond, o avozinho do filme, morria, enquanto o advogado
Gennaro ficava vivo. Naquela época eu não havia entendido que não se tratava de
uma novelização do filme, mas sim uma história muito diferente). Assim, quando
ganhei a edição comemorativa do livro Jurassic Park da minha noiva no natal de
2015 me senti obrigado a ler novamente a história e dessa vez ela se tornou
muito, muito mais surpreendente.
Minhas duas edições de Jurassic Park, ambas presentes de natal, a primeira a esquerda de 1993, que ganhei de minha mãe e a segunda de 2015 que ganhei de minha noiva. |
Mais
do que uma história sobre dinossauros atacando pessoas, Jurassic Park é sobre
uma série de questionamentos de cunho filosóficos a respeito da ciência e da
visão de mundo que ela ajuda a mudar. O livro abre com um tom de espanto e
alerta a respeito de como a engenharia genética estaria sendo um passo decisivo
e provavelmente errado do progresso humano, os diversos casos (reais e
imaginários) descritos no capitulo “O Incidente InGen” preparam o terreno para um
cenário semelhante ao da época da Guerra Fria e da iminência de uma guerra
nuclear, trocando os governos pelas empresas que detém a tecnologia e operam e
um mundo de livre mercado sem regras sobe a complacência de governos de
terceiro mundo desesperados por parecerem desenvolvidos. Não apenas o parque é
desenvolvido na Costa Rica, mas o caso do vírus do Chile também é exemplo
disso. A ficção cientifica tem esse caráter por tentar lidar com questões
filosóficas, poucas são as histórias em que a ciência surge como uma opção boa
(atualmente uma exceção seria
Interestelar, onde sem a ciência a humanidade estaria condenada). Se a
primeiro momento Jurassic Park se revela como uma clássica história de ficção
cientifica onde os frutos da ciência são o grande mal, mais a frente vemos que
a própria ciência teria alertado para o erro que estaria sendo cometido no
parque através da matemática do caos e do argumento Malcolm, baseado no
desenvolvimento de Curvas de Dragão (Dragon Curves, um tipo de semi-fractal). O
próprio livro é organizado de modo que o leitor possa acompanhar o
desenvolvimento das curvas dragão junto com a história. Cada conjunto de
capítulos que marca o próximo ponto é assinalado pelo próximo passo do
desenvolvimento da curva de dragão. Ao final o próprio Malcolm condena os
cientistas por não pensarem nas consequências e assinala que o tempo da ciência
passou, ela deveria ser esquecida e algo novo deveria surgir em seu lugar.
Evolução da Curva de Dragão. Iniciando-se com duas curvas em ângulos de 90º que se duplicam a cada interação, em uma giro de 45º. Fonte: Wikipedia. |
Para
muitos que leram o livro, Malcolm pode surgir como o paladino que carrega o
estandarte da ciência maligna, principalmente diante do nosso próprio “parque”
onde os transgênicos figuram como centro das discussões a respeito de engenharia
genética atual. Organismos com alterações no DNA que consistem na inserção de
genes de organismos diferentes (Mattei 2000), visando que um organismo passe a
ter características do doador dos genes, tornando-os menos suscetíveis as
doenças ou verdadeiros soldados na luta contra pragas. Embora a engenharia
genética tenha sim revelado avanços benéficos em diversos campos, um exemplo,
os Aedes aegyptis geneticamente
alterados que causam a morte das larvas antes de se tornarem adultas, como a
maioria das novas tecnologias colocadas à disposição no mercado, atraem olhares
de reprovação e certa suspeita.
Dando
uma previsão acertada do cenário do mundo real que envolve essa nova
tecnologia, e com isso consagrando-se como um bom livro de ficção cientifica,
Jurassic Park aborda dois problemas do uso de engenharia genética: as
consequências biológicas da inserção de genes em organismos, assim como o milho
da Monsanto, os dinossauros do Jurassic Park são transgênicos; e a questão da
patente em cima de organismos que passariam a pertencer as grandes corporações.
Enquanto o primeiro é o mais alardeado e usado como o vilão, embora a maioria
das pesquisas discordem sobre os benefícios e malefícios dos transgênicos (Mattei,
2000; Lacey, 2006; Guivant, 2006; AAAS, 2012) e a própria OMS tenha pronunciado
que os resultados são inconclusivos em relação aos efeitos negativos dos transgênicos na saúde, envolvendo
a biopirataria e a patente de organismos. Obviamente, entre os dois problemas,
as pessoas temem mais as possíveis mutações que podem surgir da transgenia do
que as consequências econômicas disso, talvez porque executivos trocando
patentes não parece ser um medo muito preocupante por sabermos que são pessoas
lidando com dinheiro, algo material e humano, enquanto cientistas estão lidando
com a “obra divina”, o “perfeito e equilibrado mundo natural”.
A
nova ciência sempre surge como uma vilã, uma obra blasfema, a ciência antiga ou
habitual é vista como algo que sempre esteve ali, mas nos esquecemos que um dia
ela foi revolucionária e nas palavras de Neil deGrasse Tisson “um iPhone
poderia trazer a lei da caça às bruxas de volta alguns anos atrás”. No fim todos
os frutos das ações humanas são guardados na caixa do “ruim”, do “não natural”,
do que viola a “ordem divina” das coisas, mesmo que atualmente tenhamos trocado
o termo divino pelos termos natural ou orgânico. A mais de 400 anos depois de
Galileu ter derrubado o primeiro pilar que sustentava o trono da humanidade e
200 anos de Darwin e Wallace terem derrubado o segundo, nós ainda corremos para
escorar sua queda com argumentos que nos coloca a parte (e acima) do restante
do mundo natural.
Antes
nos víamos como os senhores do mundo, hoje nos vemos como seus guardiões, com a
obrigação de manter o status quo. Nos
horrorizamos com o aquecimento global, e esquecemos dos dados geológicos e
paleontológicos mostrando as inúmeras mudanças climáticas que o planeta
enfrentou. Nos flagelamos pela inserção de espécies invasoras de caranguejos
através da água de lastro de navios e ensinamos nas escolas que algumas plantas
se utilizam de animais para dispersarem suas sementes. Ensinamos que a evolução
é casual e oportunista, que sem a extinção do final do Cretáceo os mamíferos
não teriam chance e provavelmente não estaríamos aqui hoje, mas tentamos a toda
maneira frear qualquer possibilidade de extinção atual. Abraçamos a hipótese de
Gaia, apesar de não conseguirmos ver esse organismo regulador da vida, e a
elevamos ao status de teoria, mas nos esquecemos de que é provável que a
hipótese correta seja a de Medeia, a vida conspirando contra a vida (Ward,
2009), sustentada pelas extinções globais causadas pelas mudanças provocadas
pelos seres-vivos. Construímos terrários e aquários e nos esforçamos para
simular ambientes estáveis neles, então olhamos para o mundo exterior e
queremos fazer o mesmo, nos deslumbrando com um equilíbrio perfeito.
Infelizmente a dita perfeição e equilíbrio do mundo natural nos impedem de ver
que, desde sempre, os organismos estão preocupados em garantir sua
sobrevivência e se para isso terão que alterar o ambiente em que vivem e causar
a extinção de outros organismos, que seja.
Em
tempos de aquecimento global, mais do que nunca se culpou cada ação humana
perante os impactos causados nos ecossistemas. A cada foto de rios
transbordando de lixo pessoas imploram por um meteoro que extermine a
humanidade (esquecendo-se que um evento dessa magnitude vai causar uma
destruição em escala muito maior que qualquer coisa já produzida pelo ser
humano). Entre essas atribuições de culpa, uma das preferidas é apontar como o
ser humano está deslocado do restante do planeta, olhamos para pilhas de lixo,
esgotos e animais atropelados em estradas e lançamos: somente o ser humano para
fazer algo assim. Essa visão nasceu de um pensamento mais antigo que antecede a
ciência, um pensamento que encaixava o mundo natural (partindo do pressuposto
que havia um “mundo sobrenatural”) em um ciclo de perfeição em que cada
organismo sabia seu papel e lugar e contribuía de modo sábio para o desenrolar de
tudo. Ainda temos essa visão quando explicamos a “importância das minhocas para
o solo”, como se anelídeos fossem empregados de Gaia felizes em manter um solo
aerado e macio para que as plantas pudessem crescer e alimentar os herbívoros.
Infelizmente, tantos os anelídeos quanto as plantas e os herbívoros não pensam
de modo altruísta assim e se as minhocas pudessem afogar as plantas e os
herbívoros em um gigantesco solo para garantir sua sobrevivência a curto prazo
elas o fariam, mesmo que isso significasse sua extinção a longo prazo.
Devo
discordar totalmente de Malcolm (e seus fãs) e dizer que no que tange a
ciência, sua suposta decadência e impactos, nesse ponto Chrichton conseguiu
deixar o personagem com argumentos controversos. Vejamos se consigo deixar
claro o equivoco. Malcolm sempre deixou explicito que o parque, do modo que os
idealizadores o pensaram, fracassaria. Eles estavam lidando com organismos
vivos e os modelos matemáticos previam o efeito Malcolm em algum momento (um
evento repentino que desencadearia o final do sistema inicial). Isso porque
conforme se rotaciona a curva de dragão e adicionam-se novas interações um novo
padrão vai surgindo e encobrindo o padrão inicial, responsável pelas
modificações e que agora não está mais visível, porém, ainda atuante. No
parque, esse problema era o DNA de anfíbio (primeira interação), escolhido pelo
sistema auto-suficiente (segunda interação), que habilitava alguns dinossauros
a se reproduzirem (terceira interação), entre eles o Velociraptors, dinossauros
que apresentavam um alto coeficiente de intelecto (quarta interação), cujo
comportamento, bem como de outros dinossauros, era imprevisível, por não serem
realmente dinossauros, conforme Wu afirma a Hammond em sua discussão sobre a
versão 4.4 dos dinos (quinta interação). Quando o sistema de computadores que
exigia o mínimo possível de controle humano para qualquer coisa, inclusive a
rede elétrica, caiu e foi reiniciado, ninguém se preocupou em verificar a rede
suplementar de energia, o que levou a uma segunda queda e por
fim a fuga dos Velociraptors (sexta interação) e os eventos finais entre eles o
inicio do equilíbrio entre do ecossistema da ilha e os eventos finais do parque
(sétima interação).
Malcolm
usou isso como um exemplo de que as ações humanas levavam ao desastre, mas ao
mesmo tempo, diante do argumento de Hammond que eles conseguiram evitar que os
dinossauros destruíssem o mundo, ele afirma que as ações humanas são
irrelevantes para a história da Terra e que desde antes do surgimento do homem,
seres vivos estariam se destruindo e destruindo o ambiente, conforme ele usa
como exemplo o evento de Grande Oxidação.
Não
por acaso o Grande Evento de Oxidação do Arqueano é considerado o maior evento
de poluição da história geológica da Terra (Goldblatt et al., 2006). A formação do supercontinente Kernoland permitiu que
surgissem mares rasos colocando os recém-chegados organismos fotossintetizantes
aeróbicos em contato com uma grande quantidade de luz solar. O aumento
repentino da fotossíntese no planeta, levou a uma introdução de uma grande
concentração de O2 na atmosfera (até então sem esse elemento em sua composição,
o oxigênio não existia de modo livre no planeta), resultando na mudança de
concentração dos gases da atmosfera e consequentemente na extinção dos
organismos anaeróbicos, para os quais o oxigênio é um veneno.
Malcolm
condena o uso da ciência, chamando-a de um artefato ultrapassado da espécie
humana, ao mesmo tempo diz que as ações humanas pouco importam para o planeta.
Nesse ponto, em seu leito de morte, Malcolm não parece se decidir, e talvez
Chrichton também não, se os avanços científicos e seus impactos não são mais
preocupantes ou se a ciência deveria ser abandonada por estar servindo como um
instrumento de destruição. Talvez Malcolm só estivesse irritado ao perceber
que, apesar da previsão corretíssima do efeito Malcolm, o parque poderia sim
existir, e trazer dinossauros de volta a vida não implica em nenhum crime moral
ou ético, uma vez que se trata de uma ação humana, tão natural quanto a
poluição causada pelas bactérias do Arqueano. Talvez sua fala final “ não
importa, as coisas são diferentes do outro lado”, mostra o ponto em que o
paradigma foi rompido e um novo começou a surgir, onde as ações humanas não são
separadas na caixa do artificial ou não-natural, mas como parte da dança que
tem conduzido a evolução dos seres vivos no planeta a mais de 3,8 bilhões de
anos.
Referências
American association for the advancement of
science. Statement by the AAAS Board of Directors On Labeling of Genetically
Modified Foods. 2012. http://www.aaas.org/sites/default/files/AAAS_GM_statement.pdf.
[Acessado em 15 de janeiro de 2016].
Chrichton, M. Jurassic Park. Editora Nova
Cultural. 1991.
Chrichton,
M. Jurassic Park. Editora Aleph. 2015
Goldblat, C.; Lenton, T. M.; Watson, A. Bistability
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Great
Oxidation. Nature. 443(12): 683-686, 2006.
Guivant,
J. Transgênicos e percepção pública da ciência no Brasil. Ambiente & Sociedade
– Vol. IX nº. 1, 2006.
Hugh
Lacey. A Controversia Sobre Os Transgênicos: Questões Científicos E Éticos. A Controversia Sobre Os Transgênicos: Questões
Científicos E Éticos. 2006. http://works.swarthmore.edu/fac-philosophy/192/.
[Acessado em 15 de janeiro de 2016].
Mattei L. Produtos transgênicos: problemas e
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Peter Ward. The Medea Hypothesis: Is Life on Earth Ultimately Self-Destructive?
Princeton University Press. 2009.
World Health Organization. Food safety: 20 questions on genetically modified
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[acessado em 15 de janeiro de 2016].